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a6000

O documentarista Werner Herzog gosta de repetir que “os fatos e a verdade não são a mesma coisa”. É fácil confundir os dois, mas fatos são irrelevantes por si só; é apenas dentro do contexto que eles ganham significado. Essa é uma lição que se aplica bem ao recente lançamento da Alpha a6000, a sucessora da NEX 6 que alega ter o sistema de autofoco mais rápido do mercado atual. Isso pode muito bem ser verdade, mas apenas de acordo com um método específico de comparação.

Como a própria Sony deixa claro em uma nota de rodapé presente no anúncio, os testes que levaram à conclusão de que a a6000 foca mais rápido que suas rivais se deu entre câmeras com sensores APS-C usando uma lente da própria Sony (E PZ 16-50mm F3.5-5.6 OSS) com o liveview ativo. Tais condições têm uma série de consequências.

Em primeiro lugar, elas excluem um grande número de máquinas que concorrem pelo título de mais rápida do mundo. Desde a profissional Full Frame Canon 1D X até a híbrida Nikon 1 V2, passando pela Four Thirds Olympus OM-D EM-1, para ser mais exato. Nenhuma dessas câmeras usa um sensor com as dimensões de um APS-C, mas todas elas são extremamente rápidas. Como o tamanho do sensor influencia o tamanho da lente para distâncias focais equivalentes e o tamanho da objetiva, por sua vez, influencia a velocidade de foco, é fácil entender porque a Sony restringiu as comparações dessa maneira. Ainda assim, existem outros tipos de sensor no “mundo” que eles pretendem conquistar.

Minha segunda ressalva diz respeito à lente e ao modo de visualização. A princípio, essa objetiva tem as características esperadas de uma lente comum, que poderia fazer parte do kit de qualquer DSLR básica. Contudo, há nela um ponto importante para o método de comparação em questão: ela usa um motor de passo para mover o vidro. Motores de passo são excelentes quando o assunto é produzir movimentos incrementais fluidos e precisos, exatamente o tipo de movimento ideal para um sistema de foco baseado no contraste.

Câmeras híbridas como a a6000 sempre foram especializadas em atuar com base no contraste da cena porque, por muito tempo, esse era o único modo de foco que podia funcionar com o liveview ativado. Esse não é o caso das DSLR, contudo. A presença do espelho e do sensor de foco por detecção de fase faz com que essas câmeras se beneficiem mais de um motor de foco como o ultrassônico, que é desenhado para fazer um único movimento que pára exatamente no ponto focal. Esse assunto merece um artigo separado, mas, resumindo, a DSLR clássica (incluindo câmeras APS-C como a Nikon D7100 e as várias Canon EOS) sempre foi muito lenta para focar no modo liveview, ao passo que a situação ideal de foco para a híbrida clássica envolve justamente o motor de passo da lente usada no teste e o modo liveview.

Por fim, um teste mais abrangente exigiria o uso da câmera em situações variadas, o que não fica claro no anúncio da Sony. Uma das grandes vantagens que uma câmera como a Nikon D4 têm sobre as máquinas de outras categorias é a sua capacidade de acompanhar objetos em movimento e mantê-los sempre em foco, um recurso de suma importância na fotografia de esportes, por exemplo. A detecção de fase sempre foi o melhor método de foco para essa situação. Como esse é um campo tradicional das DSLR, é razoável pensar que elas ainda se saem melhor nesse aspecto que qualquer híbrida.

Apesar de todas essas minha ressalvas, não tenho dúvidas de que a a6000 é de fato uma das câmeras mais rápidas do mundo no momento (algo que já é uma tradição das linha Alpha da Sony). Ela também apresenta um tremendo diferencial que contra-ataca o argumento que apresentei no parágrafo acima: 179 pontos de detecção de fase no próprio sensor. Aparentemente, a implementação da detecção de fase aqui é o método convencional de máscara, que cobre metade da superfície de alguns pixels. Não se trata de algo tão engenhoso quanto a abordagem da Canon 70D (leia este artigo para uma explicação mais detalhada do foco por detecção de fase no sensor), mas a Sony está prometendo 92% de cobertura do plano focal, o que é absolutamente incrível assumindo que a perda de sensibilidade à luz não afete a qualidade de imagem. Na prática, isso quer dizer que a a6000 pode acompanhar objetos que se movem por quase todo o campo de visão da câmera.

Para acompanhar o sistema de autofoco sofisticado da a6000, a Sony introduziu um processador de imagem novo chamado de Bionz X. A parte mais interessante desse componente é que ele acelera o disparo contínuo da máquina para impressionantes 11 FPS. Essa é uma taxa de quadros por segundo que beira o reino das câmeras profissionais. Certamente é mais que o suficiente para registrar todos os movimentos do seu gato. Além da velocidade, esse processador supostamente será capaz de amenizar os efeitos da difração em fotos tiradas com aberturas estreitas. Outra novidade considerável é que a resolução do sensor saltou de 16,1 MP para 24,3 MP.

Quem estiver interessado em gravar filmes vai ficar feliz em saber que o HDMI da a6000 manda o sinal de vídeo da câmera para outros aparelhos sem a interferência das informações de exposição. Outro recurso extremamente útil para essa atividade é a capacidade da máquina de exibir listras sobre as áreas superexpostas do quadro, algo bem raro fora do mundo das filmadoras profissionais.

A a6000 pode não ser exatamente a câmera mais rápida do mundo, mas tudo indica que ela é, em quase todos os sentidos, um grande passo adiante em relação à NEX 6, que já era uma bela câmera. O novo modelo chegará ao mercado por 650 dólares ou por 800 dólares no kit com a lente Sony E 16-50mm F3.5-5.6 PZ OSS.