A grande ironia por trás da economia digital é que nosso prazer e conveniência, na forma de um tablet ou de um smartphone, provém do sofrimento alheio. A revolução mobile que presenciamos ao longo da última década foi em grande parte sustentada por condições de trabalho deploráveis e até mesmo por conflitos armados em países subdesenvolvidos. Mas o cinismo ainda não monopolizou o mercado de eletrônicos. Entre as iniciativas para tornar a fabricação de smartphones menos revoltante, a da Fairphone é talvez a mais explícita. Trata-se de uma fabricante holandesa apoiada pela Waag Society, uma organização sem fins lucrativos. Seu objetivo é produzir um smartphone livre de minerais extraídos em zonas de conflito. Ontem, a empresa anunciou que seu primeiro produto chegará ao mercado em Outubro, logo depois de alcançar seu objetivo de pré-venda de 5,000 unidades.

Muitos minerais e outros tipos de matéria-prima são necessários para a fabricação de um smartphone. Essa diversidade resulta em uma cadeia de suprimento complexa que envolve fornecedores de várias partes do mundo. Como a mão-de-obra e a moeda de países subdesenvolvidos são extremamente baratas, estes acabam se tornando os fornecedores preferenciais de matéria-prima. 70% de todo o estanho (utilizado na solda industrial) circulado no mundo na década passada foi minerado na China e na Indonésia, onde minas ilegais extremamente perigosas são comuns. 20% do suprimento mundial de tântalo (utilizado em resistores e capacitores) provém da República Democrática do Congo, na qual o exército e tribos individuais rotineiramente cometem atrocidades em conflitos pelo controle das minas.

Embora algumas fabricantes, como a Nokia e a Intel, tenham adotado políticas louváveis para reduzir o uso de minerais oriundos de zonas de conflito, nenhuma delas está completamente livre do problema. A própria FairPhone admite que a complexidade da cadeia de suprimento impede, por enquanto, que seus smartphones utilizem apenas matérias-primas extraídas de forma responsável. Ainda assim, a empresa garante que o estanho e o tântalo vêm de fontes confiáveis.

O smartphone em si é um dual SIM com tela de 4,3″ (960 x 540 pixels), processador quad core da Mediatek, 16 GB de memória interna e câmera de 8 MP. Ele roda um Android 4.2 quase sem customização, mas o sistema operacional pode ser trocado pelo usuário com relativa facilidade. A FairPhone também se empenhou para que o aparelho seja facilmente reparado e modificado pelo próprio usuário, uma maneira de aumentar a longevidade do produto. Na pré-venda, o smartphone sai por 325 euros (cerca de 904 reais).

Pin It on Pinterest