Para efeitos práticos, todo mundo sabe o que é uma barata. Cobertas por um exoesqueleto de quitina, segmentadas em três partes, sustentadas por seis apêndices, baratas pertencem à classe Insecta, filo Anthropoda, reino Animalia. Elas rastejam pela terra há pelo menos 300 milhões de anos, quando as grandes jazidas de carvão se formaram e muito antes que qualquer criatura parecida com o homem desse seus primeiros passos. O ponto é que baratas são seres vivos.  Ou, se depender do novo projeto de Kickstarter RoboRoach, ciborgues em potencial. Desenvolvido pela Backyard Brians, o RoboRoach é um kit cirúrgico que pode ser usado para controlar os movimentos de uma barata a partir de um smartphone.

Construir o seu próprio ciborgue envolve um procedimento relativamente simples. Essencialmente, esses insetos dependem de um par de antenas ocas para reconhecer o mundo através de sentidos parecidos com o nosso tato e olfato. Como nos humanos, essas informações sobre o ambiente são transmitidas por impulsos elétricos carregados por neurônios. A cirurgia preparatória, portanto, consiste em cortar as duas antenas e introduzir dois fios em suas cavidades. Esses fios são ligados a alguns eletrodos e a um circuito simples que contém um controlador de Bluetooth Low Energy. O usuário, então, faz o pareamento da barata com um smartphone Android ou iOS e, através de um aplicativo, controla as cargas elétricas que passarão a controlar o animal. Na prática, dependendo do estímulo, a barata acredita que deu de cara com um obstáculo e é forçada a mudar sua direção de acordo com os desejos do usuário. Depois de algum tempo, contudo, as baratas se adaptam à nova situação e param de respondem aos estímulos.

Quem doar 100 dólares para a empreitada ganhará um kit cirúrgico com a placa de Bluetooth,  três eletrodos e uma bateria de duração estimada de 12 horas. Por 150 dólares, o doador terá o prazer de receber um pacote com uma dúzia baratas “bem treinadas e bem comportadas”, mas essa remessa só é válida para endereços nos EUA.

Obviamente, o objetivo do RoboRoach não é pregar um peça em animais insuspeitos. A ideia da Backyard Brains é criar um instrumento de pesquisa neurológica que qualquer pessoa possa utilizar. Na própria página do projeto eles sugerem alguns tipos de estudo que podem ser conduzidos, como a observação de quanto tempo cada barata leva para perceber que algo está errado. É inegável que uma ferramenta como essa seria excelente para demonstrar em sala de aula alguns conceitos de biologia, comportamento e até mesmo de engenharia.

Mas a despeito das intenções de seus criadores, o RoboRoach trás para o cotidiano certas questões éticas sobre experimentos com animais que antes ficavam reservadas aos laboratórios. Anestesiadas ou não, baratas possuem um aparato sensorial tão radicalmente diferente do nosso que elas podem satisfazer perfeitamente a definição da palavra “alien”. Portanto, é impossível ser honesto quando o assunto é determinar o grau de “bem-estar” de uma barata. Mas a questão não é se elas sentem dor ou desconforto como nós e sim qual é a nossa liberdade de interferir com a sua existência.

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