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Tenho que admitir: sou um daqueles gamers ranzinzas. Quase duas décadas de jogatina me deixaram rancoroso e intransigente. Tanto, na verdade, que ao assistir ao gameplay do novo Thief, o único comentário que me ocorreu foi: “A Eidos enlouqueceu? Por que o Garrett está ganhando experiência por matar guardas?” Naturalmente, essa inclinação me fez evitar a cena de jogos mobile como quem foge de um abismo de casuais. Mas meu coração gelado está derretendo e o responsável por isso é o modesto OUYA, um console de 100 dólares baseado no Android.

O história do OUYA já é muito bem conhecida. Ele começou como um projeto de Kickstarter que prometia uma plataforma de games mais aberta tanto para desenvolvedores como para jogadores. A recepção inicial da maquininha foi tão boa que seus criadores logo organizaram uma estratégia de lançamento comercial.

Desde então, as notícias positivas deram lugar às negativas. As vendas de unidades ficaram aquém do esperado e ainda não apareceu um título exclusivo para a plataforma que atraísse uma audiência mais ampla. Sem mencionar, é claro, que algumas das pessoas  que apoiaram o projeto no Kickstarter ainda não receberam seus modelos.

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Mas vamos deixar esses problemas externos de lado por um instante para nos concentrarmos no console em si. O OUYA é uma máquina baseada no Tegra 3 (mais especificamente, o  T33-P-A3, com quatro núcleos Cortex A9 e uma GeForce ULP) rodando uma versão muito customizada do Android 4.1. Essencialmente, ele é um tablet Android  sem tela e com um mercado próprio de aplicativos.

A parte legal dessas especificações é que a maioria dos jogos feitos para Android podem rodar no OUYA sem grandes modificações. Corona, Unity, Game Maker e outros SDKs  com suporte a OpenGL também são aceitos pela máquina. Todo OUYA já vem com um SDK e a própria interface do console tem uma seção para desenvolvimento. A máquina em si, assim como o controle que a acompanha, pode ser aberta com uma simples chave torx.

Por dentro, o console é basicamente um PCB com um fan acoplado.

Por dentro, o console é basicamente um PCB com um fan acoplado.

Resumindo, o OUYA foi pensado desde o início para ser amigável para desenvolvedores. O processo de publicação de jogos também é simples quando comparado ao que acontece nos consoles tradicionais. A única regra de ouro é que todo jogo é obrigado a ter algum elemento grátis. Todos os jogos que aparecem na loja do OUYA podem ser baixados de graça. A ideia é que os desenvolvedores ganhem dinheiro com micro transactions, DLCs e versões desbloqueadas de games.

Ironicamente, essa regra parece ter sido a principal responsável por enfraquecer o interesse pela plataforma. Atualmente, o ecossistema por trás do console parece mais um deserto do que uma selva. Existem poucos títulos e a maioria deles é simplesmente ruim. Não me refiro a jogos tão ruins que são bons, como The Amazing Frog. Estou falando de jogos tão ruins que são ruins mesmo. Claro, existem algumas gemas escondidas nesse mar de besteiras. Um exemplo é o Tower Fall, uma mistura extremamente divertida de Worms com Portal. Mas títulos como esse são raros e mesmo eles não oferecem uma experiência tão densa quanto a que se espera de um console dedicado.

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Obviamente, o hardware do OUYA é incapaz de reproduzir os gráficos de um PlayStation 3 e muito menos os de um PC. Até mesmo em jogos com visual retrô, essas limitações ficam evidentes na resolução escolhida pelo desenvolvedor. Alguns games não chegar a ocupar toda a tela de uma TV Full HD, por exemplo.

Outro problema sério de hardware diz respeito ao controle. Ele pode até ser confortável, mas basta segurá-lo para perceber que ele não está entre os gamepads mais sólidos. Os botões L e R, por exemplo, rangem ao serem pressionados. O botão “O” também travou com certa frequência enquanto eu estava jogando.

Apesar de todas essas questões, o OUYA tem uma vantagem que me fez esquecer todos os seus pontos fracos. Ele roda Android e isso implica a presença de uma série de emuladores de consoles como o Super Nintendo e o PSX. Sou absolutamente obcecado pelos JRPGs do SNES e do PlayStation One (joguei desde Bahamut Lagoon até Xenogears) e um console com HDMI que pudesse virtualizar ambos sempre foi meu sonho de consumo.

Dhaos é derrotado por um grupo de heróis. Preciso mencionar que ele volta para aterrorizar o mundo?

Dhaos é derrotado por um grupo de heróis. Preciso mencionar que ele volta para aterrorizar o mundo?

Além do “nerdgasm” que tive ao ver Tales of Phantasia em uma tela de 47″, a questão da emulação foi para mim uma demonstração eloquente do potencial do OUYA. Por rodar Android, ele poderia no futuro cumprir uma série de funções, incluindo a de servidor de mídia. Claro que potencial por si só não vale 100 dólares, mas espero que o OUYA sobreviva para ter tempo de ser melhorado.

 

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