zeiss otus1

Todo produto é o resultado de uma série de comprometimentos entre qualidade, conveniência e custo. O que acontece se você ignora esses dois últimos em nome do primeiro? Algo como a nova linha de lentes da Carl Zeiss, a Otus. A primeira nova objetiva da empresa é a Otus 1,4/55, uma lente prime para câmeras full frame que custa exorbitantes 4,000 dólares.

Não é apenas o preço da Otus que excede outras lentes. Com 14,1 cm de largura e quase 1 kg de peso, ela é consideravelmente maior e mais pesada do outras lentes similares. Além disso, abertura de f1,4 em  50 mm de distância focal é uma especificação excelente, mas nada extraordinária, especialmente quando se considera que a Otus não possui um motor de autofoco interno. A própria Zeiss fabrica uma lente 50 mm f1,4 para câmeras da Sony que custa cerca de 1,500 dólares (o que também prova que não é o peso da marca que está puxando o preço da Otus para cima). O que aconteceu, então? Os alemães enlouqueceram? É claro que não. Em produtos desse nível, as especificações básicas dizem muito pouco sobre os recursos reais.

A inovação (e o custo elevado) da Otus está em seu método de construção. Em vez de utilizar o convencional design Planar, a Zeiss optou pelo Distagon, que costuma ser utilizado em lentes grande angulares de distância focal curta. Objetivas Planar possuem um design muito eficiente e compacto, com 4 grupos simétricos de lentes. Contudo, essa simetria também introduz problemas: se o sistema óptico é projetado para corrigir distorções nos raios de luz que passam pelo centro das lentes, a periferia não recebe o mesmo tratamento e vice-versa. Da mesma forma, o design Planar precisa escolher entre priorizar a correção de aberrações espaciais ou cromáticas porque o mesmo elemento óptico é responsável por ambas.

Planar_1896

As origens do esquema de construção Distagon estão em um velho problema cinematográfico, quando Hollywood estava começando a filmar em cor com as máquinas Technicolor. Essas filmadoras utilizavam um separador de raios volumoso entre a lente e o filme, o que impedia o uso de uma objetiva de distância focal curta e limitava as opções de enquadramento do diretor. O esquema de construção Distagon foi criado com esse problema em mente: seu objetivo era reunir um conjunto assimétrico de lentes para aumentar a distância entre o plano de imagem e a última lente da objetiva, abrindo mais espaço para outros componentes entre os dois (vale notar que Pierre Angénieux desenvolveu um sistema similar ao mesmo tempo que os engenheiros da Zeiss).

"E o vento levou..." utilizava uma linguagem cinematográfica baseada no close up que sobrevive até hoje nas novelas.

“E o vento levou…” utilizava uma linguagem cinematográfica baseada no close up que sobrevive até hoje nas novelas e nos filmes românticos, mas sua origem está em uma limitação técnica das filmadoras da época.

Eventualmente, outras vantagens do Distagon se tornaram evidentes para o mundo da fotografia, incluindo a digital. Quando uma lente de distância focal muito curta é posicionada logo ao lado do sensor, alguns raios de luz podem atingir a superfície sensível em um ângulo oblíquo, o que causa distorções e pode até escurecer os cantos da foto. Lentes Distagon não sofrem tanto com esse problema.

Contudo, a Otus 1,4/55 não é uma grande angular. A ideia da Zeiss ao utilizar o Distagon em uma objetiva de distância focal longa é se aproveitar do conjunto mais complexo de lentes que ele oferece para corrigir vários tipos de aberrações que costumam ser ampliadas por aberturas amplas (e f1,4 é muito amplo). A Zeiss chegou ao ponto de introduzir mais lentes no design da Otus do que a prescrição do Distagon original para torna-la mais versátil. São 12 elementos em 10 grupos que amenizam aberrações cromáticas, coma, curvatura de campo e outros defeitos que permeiam toda lente.

otus lens

Diagrama da Otus: o Distagon permite a utilização de vários elementos ópticos diferentes. Em cerceta, um elemento aesférico. Em azul, lentes de dispersão parcial. Note que o Distagon é como uma teleobjetiva invertida.

O objetivo principal da Otus, portanto, é manter um grau consistente de qualidade de imagem desde o centro até o a periferia das fotos. Os testes da própria empresa mostram que o novo esquema de construção traz benefícios impressionantes. Nos gráficos abaixo, que ilustram a função de transferência óptica da Otus comparada a uma lente Planar, a nova objetiva da Zeiss quase não perde contraste do centro para a periferia em fotos de resolução menor (10 LP/mm – 10 pares de linhas por milímetro). Mesmo nas resoluções mais altas, o nível de contraste mantém-se bem consistente. Da mesma forma, as diferenças entre o constaste medido em planos diferentes (representados pelas linhas sólidas e pelas linhas intermitentes) são pequenas em comparação com a lente Planar.

zeissmtf

Neste diagrama da Carl Zeiss, a correção de curvatura de campo é exemplificada acima. Abaixo, o gráfico MTF da Otus (esquerda) é comparado ao de uma lente Planar comum (direita).

Obviamente, a fonte é enviesada. É difícil dizer quanto dessa sopa de números se traduzirá em benefícios perceptíveis no mundo real. Mas a Otus não deixa de parecer promissora. Se ela seguir o exemplo do animal que lhe dá nome, não precisamos nos preocupar. Otus é o nome de um gênero de corujas com olhos enormes:

otus

Pin It on Pinterest