Qualquer biografia mais curta diz que Aaron Swartz fez coisas incríveis, entre elas, ter sido co-criador do RSS com apenas 14 anos de idade, co-fundador do site de compartilhamento de conteúdo Reddit e colaborador das definições do Creative Commons. O Open Library também teve o seu envolvimento. Tudo isso é suficiente para torná-lo admirável e digno de respeito no mundo todo, mas este rapaz foi muito mais longe e, talvez, isso tenha custado a sua vida.

Aaron Swartz – Imagem por Wikipedia

Aaron Swartz – Imagem por Wikipedia

Swartz tinha tudo para ser como aqueles nerdzinhos de ego inflado, que despreza toda e qualquer pessoa que lhe pareça intelectualmente inferior ou, no sentido contrário, que desvaloriza sua própria capacidade na tentativa de ser aceito por grupos “descolados” que, na verdade, só são hábeis em manipular – “vamos ser legais como esse cara, ele pode ser nosso chefe um dia”. Mas não: Aaron Swartz direcionou seus esforços em prol dos interesses de todos. Como? Defendendo a livre circulação de informações na internet.

Foi por este ideal que Swartz ajudou a criar o Demand Progress, um  grupo que luta por causa sociais. Esta organização inclusive teve papel importante nas batalhas contra as absurdas propostas de lei SOPA e PIPA. No vídeo abaixo (em inglês), por exemplo, é possível ver Aaron contando “como nós paramos a SOPA”:

Em julho de 2008, Swartz publicou um documento que eu li apenas no ano passado, quando estudava a proposta SOPA. Foi quando eu tomei conhecimento de seus feitos. De nome Guerilla Open Access, o manifesto prendeu a minha atenção logo nas duas primeiras frases:

“Informação é poder. Mas, como todo poder, há aqueles que querem mantê-lo para si mesmos”.

O texto não é longo, mas lê-lo causa quase que o mesmo efeito de quando terminamos um livro que chacoalha a mente. Você pode obtê-lo em archive.org/details/GuerillaOpenAccessManifesto. Se preferir, o manifesto está disponível em português no site Baixa Cultura.

Perceba, a essência da luta de Swartz não estava em defender o download de músicas pela internet ou a obtenção de filmes no BitTorrent. Estava em combater o aprisionamento do conhecimento, em impedir que apenas grupos elitistas tenham acesso à informação relevante. A internet é um meio bastante eficiente e relativamente barato de comunicação, por que não aproveitar todo este potencial para fins educacionais?

Aaron Swartz defendia tanto a disseminação de informação que acabou se envolvendo em uma trama complexa: em 2011, foi acusado de invadir a biblioteca digital JSTOR, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), e obter ilegalmente 4,8 milhões de artigos acadêmicos, muito provavelmente com o propósito de redistribuí-los livremente. Antes disso, ele já havia sido investigado por publicar irrestritamente documentos da Justiça dos Estados Unidos, conteúdo este cujo acesso só é permitido mediante pagamento.

O vazamento de arquivos do JSTOR fez com que Aaron Swartz sofresse um processo judicial severo, com chances consideráveis de condená-lo a pelo menos 35 anos de prisão e ao pagamento de uma quantia astronômica como multa – estima-se que por volta de 1 milhão de dólares. O julgamento iria acontecer dentro de algumas semanas.

Swartz foi encontrado morto na última sexta-feira (11/01/2013) em sua residência, em Nova York, Estados Unidos, como consequência de um suposto enforcamento. Sua família divulgou uma nota em que afirma que “o falecimento de Aaron não é apenas uma tragédia pessoal, mas sim fruto de um sistema judicial repleto de intimidação”. Viveu por apenas 26 anos.

Não dá para saber se o processo é, de fato, o motivo que o fez acabar com a sua própria vida (se é que foi isso mesmo o que aconteceu). Aaron Swartz sofria de depressão e a doença, por si só, pode levar a uma atitude como esta. O que se tem certeza é que a ação judicial estava perto de tudo, menos de ser justa: o rigor empregado era tão elevado que parecia mais apto a punir o ideal do que o ato. Ora, estamos falando do mesmo sistema que faz o jogo com as cartas de quem tem mais poder.

Acredite, trata-se de uma perda e tanto. O prejuízo, no final das contas, é nosso: a gente sofre uma derrota toda vez que uma morte é a única coisa capaz de chamar a atenção para questões tão importantes. Que ao menos não tenha sido em vão.

Referências: The New York Times, The Huffington Post.

Emerson Alecrim

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