projeto ara

A liberdade já foi chamada de “o terrível nome inscrito na carruagem das tempestades”. Sem dúvida, o conceito é bem mais complicado do que isso, mas a analogia faz sentido em pelo menos um nível: a liberdade real raramente produz formas domesticadas e consumíveis. Nada disso parece preocupar  a Motorola, no entanto. A empresa acaba de anunciar um projeto de smartphone aberto que pretende “fazer pelo hardware o que o Android fez pelo software”. Mais concretamente, a ideia envolve produzir módulos intercambiáveis de componentes como câmera, CPU e bateria. Dessa maneira, cada usuário escolheria a configuração de seu aparelho.

Não é mera coincidência se esse conceito soa familiar. A Motorola está desenvolvendo o projeto Ara em parceria com Dave Hakkens, que ganhou fama há algum tempo graças ao Phonebloks. Além disso, há indícios que o interesse do Google por designs modulares é mais antigo do parece à primeira vista. Meses antes de comprar a Motorola, Mountain View já havia adquirido patentes da Modu, uma empresa israelense que fabrica feature phones baseados em módulos. Será que a Motorola era apenas mais uma peça em um projeto maior?

Não é difícil imaginar razões que motivariam o Google a operar uma grande transformação no mercado de smartphones. Embora o Android tenha conquistado uma fatia enorme do mercado, a maioria das pessoas não o conhece em seu estado puro. No momento, presenciamos uma guerra de influência entre o Google e os maiores fabricantes de aparelhos Android. O caso da Samsung, que é também o OEM mais bem sucedido, é emblemático: seus aparelhos têm uma interface cada vez mais modificada e vêm com cada vez mais conteúdo exclusivo. O Galaxy Gear, que a princípio só instala aplicativos da Samsung Apps, não poderia ser um exemplo melhor dessa ameaça. Essa é apenas a parte mais óbvia do problema. Quando olhamos para os aparelhos altamente customizados de fabricantes chineses como a Xiaomi, o futuro do Google parece incerto naquele que já se tornou o maior mercado de smartphones do mundo.

Conter o avanço dos OEMs exigiria uma mudança radical na maneira como o hardware é fabricado e utilizado. Embora a experiência de uso de um aparelho dependa sempre de um conjunto de fatores, a estrutura do marketing que vende esses produtos depende mais de um grupo relativamente pequeno de “recursos fatais”: o Moto X fala com você, o Galaxy S4 tem um conjunto de sensores de ambiente, o Lumia 1020 tem uma câmera extraordinária, etc. O que aconteceria se pudéssemos comprar apenas a tela do HTC One ou apenas o M7 do iPhone? Segundo a Motorola, viveríamos em um mundo idílico no qual cada pessoa teria o smartphone perfeito para suas necessidades. Claro, essa também é uma distopia para qualquer fabricante que quer vender um aparelho inteiro, com muito mais valor agregado.

O próprio antagonismo entre essas duas visões de futuro já é o primeiro obstáculo no caminho do Google. Mas a relutância natural dos OEMs independentes em aceitar tal projeto pode ser a resposta definitiva para uma das perguntas mais repetidas ultimamente: “o que o Google pretende fazer com a Motorola?” Se existe alguma empresa capaz de superar os desafios de produção de um Android modular, ela só pode ser o combo de Google com Motorola Mobility. Ao mesmo tempo, ninguém está mais bem posicionado para lucrar com o possível sucesso de um projeto como esse. Afinal, reduzir fabricantes independentes a meros produtores de componentes seria uma tremenda vantagem para o Google no jogo de influência sobre o ecossistema.

“Possível sucesso”… É difícil dizer com quanto otimismo involuntário de minha parte este adjetivo não está carregado. Uma visão mais cínica (ou devo dizer “realista”?) poderia facilmente confinar o Ara a mais um dos devaneios megalomaníacos do Google. Os aparelhos aparecem maravilhosos na imagem que postei acima. Mas é muito difícil que essa visão, com componentes que se conectam quase como blocos de Lego, se traduza em algo desejado pelo grande público.

A realidade é que existe uma troca inescapável entre modularidade e eficiência de design. A Microsoft não tornou o Surface Pro 2 quase impossível de abrir e consertar porque ela tem uma agenda contra seus consumidores.  Ela o fez porque o Surface é uma máquina especializada, com um design holístico que utiliza componentes que não se encontram em qualquer lugar. Da mesma forma, o HTC One usa uma bateria inacessível porque instalar as células logo abaixo da tela economiza espaço e permite que uma bateria de tamanho razoável seja encaixada em um corpo fino e curvado.

Além de interferir na aparência e tamanho do produto (algo essencial no mundo mobile), a decisão entre integração e modularidade também tem outras consequências práticas. É verdade que os últimos meses foram pontuados por lançamentos de aparelhos que usam chips dedicados para tarefas específicas, mas essa é mais uma exceção do que uma tendência. Processadores especializados como o X8 e o M7 são casos especiais porque eles coletam dados sem interrupção, mas, em geral os grandes culpados pelo consumo de energia são as interfaces de I/O. Não por acaso, a integração de funções no die é uma estratégia utilizadas pelos fabricantes há anos para economizar energia. Mesmo o M7 e o X8 podem eventualmente tornar-se parte do SoC com alguma técnica de power gating.

Outra questão extremamente série diz respeito à escala de produção desses módulos, tanto no que diz respeito ao hardware quanto ao software. Estabelecer fábricas que produzam essas peças é uma preocupação óbvia, mas também precisamos considerar que todo esse hardware precisa ser controlado por algum software. Nesse ponto há bons precedentes: o kernel do Linux é perfeitamente apto para funcionar em vários tipos de máquinas. Mas isso é apenas parte do que faz um sistema operacional. A extraordinária variedade de hardware que existe hoje no ecossistema do Android só se tornou viável porque os grandes OEMs investiram em modificações e APIs próprias, sem mencionar suas contribuições para a interface do SO. Tais dificuldades me levam a crer que as opções de módulo para os telefones baseados no Ara serão limitadas.

Estamos apenas resvalando a superfície do imenso problema que o design modular propõe. Considere, por um instante, as implicações de um módulo com algum tipo de comunicação à rádio e as diferenças de comportamento que sua interação com outros módulos pode causar, como as agência reguladoras de cada país vão tratar um produto desse tipo? E quanto à fragilidade estrutural? E as operadoras de telefonia, o que elas têm a ganhar com telefones que podem ser incrementados com o tempo? Nenhum desses problemas é insolúvel, mas é importante entender o tamanho da empreitada a que a Motorola e o Google estão se propondo.

Se ignorarmos todas as dificuldades técnicas, resta ainda uma última consideração, que é talvez a mais importante de todas: o público quer smartphones modulares? Não há dúvidas de que desenvolvedores, early adopters e curiosos adorariam um aparelho como esse, mas faz tempo que smartphones não são produzidos para pessoas como eu e você. Smartphones e tablets são feitos pensando nas nossas tias, pais e primos de dez anos. Ou seja, pessoas normais, que não sabem e nem querem saber o que é ISP, ICP, GPU ou qualquer outra sigla similar. É no interesse deles que está a diferença entre um produto de nicho e um ícone cultural.

Quem vive fora dessa nossa comunidade insular de tecnofílicos geralmente prefere pacotes prontos, que não são sobrecarregados pelo peso das escolhas, o que explica em parte o sucesso da Apple. Nada disso é intrinsecamente ruim, trata-se apenas de uma forma diferente de se relacionar com a tecnologia. Talvez a possível economia que o modelo do Ara pode gerar o torne mais atraente para o público geral. No entanto, sem ver um protótipo funcional, é impossível prever o grau de sucesso comercial do Ara.

Não tenho ilusões quanto aos objetivos do Google. Como qualquer outra empresa, a essência de sua motivação está no lucro (e não há nada de errado nisso). Assim como o Android passou de um sistema aberto para outro definido por aplicações proprietárias conforme sua posição se consolidou, a promessa de um projeto de hardware aberto como o Ara pode eventualmente ser esquecida caso ele seja bem sucedido. Alguém lembra das versões AOSP do Maps, Search, Camera e outros aplicativos?

A alternativa, obviamente, é que o projeto seja cancelado por não ser comercialmente interessante. Apesar das minhas ressalvas, sinto que o Ara tem potencial para introduzir pelo menos um pouco mais de flexibilidade no mundo engessado dos smartphones, o que seria benéfico para todos nós. Tal liberdade tem seu preço na perda de recursos e na possibilidade de um controle ainda maior do Google sobre nossos telefones, mas ser livre nunca foi uma condição confortável.

Pin It on Pinterest